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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Terno e gravata

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Houve um tempo em que as roupas ditavam a qualidade do sujeito. De acordo com a vestimenta, era possível presumir a profissão, a renda e a classe social. Havia uma distinção, e os uniformes serviam mais para segregar do que para harmonizar. Felizmente, esse tempo passou. Hoje, as mulheres também ocupam o espaço laboral e as roupas, de certa forma, tornaram-se acessíveis a todos.

Seriedade

Lembro-me bem de quando iniciei a carreira de auditor. Da noite para o dia, troquei o tradicional conjunto jeans-camiseta-tênis pelo terno, gravata e sapato de bico. Bastou isso para que eu me tornasse respeitado, mesmo não tendo caráter suficiente para tal. Sim, de certa forma, eu fui um mau-caráter. Sempre fui uma boa pessoa, mas tinha muitos defeitos a limar. Não me envergonho. Talvez o terno e a gravata tenham me ajudado a ser quem eu sou, mas não sinto saudade alguma de ter de parecer uma pessoa que, em verdade, eu ainda não era.

Roupas falsas

Desde pequenos somos treinados a observar o que as pessoas vestem. Vem daí a repulsa que muitos têm pelos mendigos. A roupa diz muito sobre o que o sujeito é, por fora, mas pouco diz sobre o que se é por dentro. Não basta ter um jacarezinho ou outras insígnias bordadas na camisa. Hoje, basta ir a um centro popular de compras e escolher qual grife você quer ostentar. Afinal, se o caráter é falso, por que razões a roupa tem de ser verdadeira quando o que se quer é apenas mostrar algo que não somos?

Bandidos de terno

Entre o grupo de jovens auditores a que eu pertencia, tinha destaque um nobre colega chamado Tarcísio, proprietário do Power Love. Um Opala coupé de dois dormitórios, muito conhecido na Faculdade de Economia da UFRGS. A viatura tinha dois bancos inteiros e câmbio na coluna de direção. Engatar as marchas era como engatilhar uma Winchester. Grande, era capaz de transportar seis pessoas ou mais. Quando saíamos para almoçar com o Opala e parávamos perto de um banco, logo chegava a Brigada Militar para desbaratar a quadrilha de jovens famintos e inofensivos. Por que razão? Porque o Opala era “carro de bandido” e o terno e a gravata eram as vestimentas preferidas dos assaltantes de banco. Tirando a truculência policial, era sempre divertido.

O terno hoje

Os anos passaram. Hoje, tenho mais medo de alguém que vista terno e gravata do que de um mendigo de cara feia. Quando vejo alguém saindo de casa, durante a semana, no final do dia, com o cabelinho penteado e o terno lustroso, já sei para onde o sujeito vai. Vai para a escola. Para o clube das boas maneiras, encontrar outros amigos para “fazer o bem”. Sabe-se bem a quem. Por isso, passei a ter preconceito com a roupa, por mais elegante que seja. Cabelos grisalhos não combinam com terno e gravata. Se alguém me convidar para um evento desses que precisa dessa vestimenta, sou capaz de declinar. Precisaria alugar um. E a liberdade? Onde está? Por que são os outros que devem definir o que devo vestir? Em que ano estamos mesmo?

O pijama

Finalmente, quando as pessoas morrem e precisam ser veladas, é ele, o famigerado terno e gravata que veste o morto na cerimônia. Percebem? Se fosse uma roupa boa, não iria para o fundo da terra servir de alimento aos vermes e bactérias. Depois de morto, ainda tem quem queira impressionar. Isso é muito insano. Por isso, já deixo aqui escrito. Quando eu morrer, façam-me o favor de me enterrar com uma roupa velha e desbotada, como cantava Belchior. Ao menos vou decompor meu corpo sem dar desgosto aos vermes e bactérias. Até eles já devem estar cansados disso. Vai ser uma festa debaixo da terra. Tomara que também seja assim no céu.

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