O que descreve o ser gaúcho? Cantamos alguns atributos do gaúcho em nosso hino rio-grandense: valoroso, constante, livre, forte, destemido. Estes são atributos referentes ao caráter de ser gaúcho. No entanto, podemos identificar atributos externos, referentes ao traje ou indumentária: a pilcha, com tudo que a compõe, chapéu, lenço, camisa, guaiaca, bombacha, bota, soma-se a isso a vestimenta da prenda. Contudo, será que todos os gaúchos e gaúchas se identificam com o que foi exposto acima, seja nos atributos de caráter ou em sua exterioridade indumentária? Minha breve resposta, fundamentada nas obras do compositor, músico e escritor de Pelotas, Vitor Ramil, é de que ser gaúcho está mais relacionado a um modo de ser específico, que nos distingue de outras regiões brasileiras como, por exemplo, o tropicalismo dos lugares mais quentes do Brasil. E esse fator distintivo é o frio.
No dia 19 de junho de 2003, Vitor Ramil apresentou seu ensaio A Estética do frio em francês no Théâtre Saint-Gervais em Genebra, Suíça, como parte da programação Porto Alegre, un autre Brésil. Ali ele levanta a pergunta do gaúcho que se sente isolado do resto do Brasil, como se vivêssemos em outro Brasil, questionando de que forma nos expressávamos mais completa e verdadeiramente. Essas são perguntas que nos levam a questionar nossa identidade.
Antes de prosseguirmos, uma brevíssima definição: estética é palavra de origem grega, aisthetiké, que significa “aquele que percebe”. Tendo em vista essa definição, podemos dizer que a estética do frio diz respeito a um modo de perceber nossa existência à luz do clima frio que habitamos. Sendo que o frio faz com que os modos de ser específicos do gaúcho se tornem manifestos, podemos dizer que uma das manifestações de ser gaúcho é ser reflexivo: como o gaúcho solitário que, abrigado por um poncho de lã, toma seu chimarrão, pensativo, os olhos postos no horizonte (RAMIL, 2004, p.19). O frio somado ao horizonte dos pampas faz do gaúcho um ser da imensidão, do silêncio, do pensamento reflexivo.
Nas palavras de Ramil, a milonga, em sua inteireza e essencialidade, opõe-se ao excesso e à redundância; o frio lhe corresponde aguçando os sentidos, o recolhimento, o intimismo, e ressaltando suas propriedades: rigor, profundidade, clareza, concisão, pureza, leveza, melancolia (RAMIL, 2004, pp. 22–23).
Talvez sejam essas tonalidades afetivas uma possível resposta para a sociedade tecnológica contemporânea, cheia de distrações, novidades e excessos; são esses atributos que a tradição gaúcha pode oferecer às futuras gerações. Olhar para a existência gauchesca à luz da estética do frio é abrir horizontes de sentido, é encarar a existência como uma viagem, onde às vezes o lugar que queremos alcançar já é onde estamos, mas precisamos de uma longa volta para encontrá-lo (RAMIL, 2004, p. 50). Ou seja, ser gaúcho é olhar para a existência gaúcha de forma mais detida e demorada.
Ser gaúcho é muito mais do que se vestir com trajes típicos durante uma semana em setembro, ou replicar um caráter aguerrido e bravo. A Milonga de Sete Cidades, de Vitor Ramil, que percorre justamente essas sete qualidades, rigor, profundidade, clareza, concisão, pureza, leveza e melancolia, como estações de uma jornada, abre um possível horizonte para pensarmos o ser gaúcho no século XXI.
Fonte: RAMIL, Vitor. A estética do frio. Pelotas: Satolep Livros, 2004.